sexta-feira, 31 de julho de 2015

X TITAN DESERT by Garmin - O DAKAR EM BICICLETA


“(…) Vais iniciar uma experiência que desde o momento em que decidiste abraçá-la ela já mudou a tua vida, a tua rotina, a tua relação com a família e amigos, porque é muito o esforço que fizeste e muitas as coisas que deixaste para segundo plano. (…) Tudo fizemos para que no fim deste percurso, após os 600kms e no fim de cada noite quando olhares para as estrelas e duvidares se amanhã irás conseguir, a recordação da experiência fique tatuada na tua alma como algo único e inesquecível. (In Race Book Titan Desert by Garmin)


Assim é a Titan Desert, PURA AVENTURA! Essa é a palavra que define o Titan. Quem não se sentir bem fora da sua zona de conforto durante vários dias não desfrutará deste desafio, não se dará ao deserto, não se misturará com o ar quente e seco, não inalará o odor do incenso e outros aromas tipicamente marroquinos.

Um acampamento TITAN tem este aspecto...

A Bikes World Portugal foi a promotora do concurso que me levou a esta prova mítica, um autêntico Dakar em bicicleta! Desde os acampamentos no meio do nada, de uma dimensão gigante para 600 participantes, alojados em “haimas” (tendas marroquinas feitas com panos de lã e erguidas com grandes estacas), com direito a tenda-restaurante com buffet aberto desde a chegada dos primeiros ininterruptamente até às 17h, e depois de novo para jantares, pequenos-almoços desde as 5h da manhã; bar para venda (com os “titanitos”, espécie de moeda oficial da prova) de bebidas e alguns extras; duches, WCs e toda uma estrutura de apoio, com 300 elementos no staff, camiões para o transporte diário de bagagens e material variado, helicóptero, jipes… Assim se percebe que esta organização com 10 anos de experiência seja uma máquina logística bem oleada, capaz de proporcionar uma experiência do deserto que só quem o conhece poderá avaliar bem.
Pela descrição, parece que temos muitas facilidades? Pura ilusão. Após cruzarmos a meta vem a 2ª parte da etapa: há que ir buscar o saco, que está numa fila de outros tantos, pousado no solo cheio de pó, sob um sol directo que facilmente atinge os 45º ou mais, arrastá-lo ou pegar-lhe em peso (uns 20kgs) e procurar a nossa “haima” no longo labirinto (bem sinalizado) do acampamento. Desde o momento em que tomamos o merecido duche até ao momento em que, ao final da tarde, começa a ficar um pouco mais fresco, o suor continua a escorrer pelo corpo, a sede continua apesar dos líquidos ingeridos, o nariz continua incrivelmente seco e chega a sangrar devido ao calor e ausência de humidade, e o único local onde se consegue estar é na tenda-bar, onde passamos o tempo espojados nos tapetes marroquinos ou nos “puffs”. Os mais afortunados vão às massagens (serviço bem pago), e os menos recheados (como eu!) limitam-se ao precioso serviço Compex diário, patrocinador que oferece todos os dias 20min (dá para uma “siesta”!) no programa de recuperação deste belo aparelho. Mas como é grátis, é preciso esperar na fila…

Chegada ao Acampamento de Partida

1ª Etapa – Etapa Xmile Cycle Team: Boumalne Dades – Aknioun (115kms, 2770mts acumulado):

A 1ª etapa é a mais assustadora, não só pelas duas grandes subidas do dia que atravessam as montanhas do Atlas, tendo a 2ª maior inclinação, como também pela 1ª descida, para a qual muito tínhamos sido alertados para o perigo. Como sempre, no início de uma prova destas, o arranque é incrivelmente rápido! São cerca de 20k planos e rolantes, em que todos querem posicionar-se bem e chegar o mais à frente possível. Muitas quedas e bidons pelo chão logo no início. Logo ao km4 vejo o Marco Chagas e o Nuno Margaça parados numa berma já com um problema num pneu. Não me preocupo e sigo, pois eles estão em equipa de 3, juntamente com o Pedro Serras, e juntos arranjam solução. Foi sempre a dar gás até ao CP1, que estava sensivelmente ao km18. Estes CPs são apenas controlos de passagem electrónicos OBRIGATÓRIOS. Eu só pensava para com os meus botões que não aguentaria este tipo de andamento rápido durante muito tempo. Mas logo a seguir vem aquilo que eu gosto: subidas! Coloco o meu ritmo e olho para a encosta, com o caminho a serpentear em curva e contra-curva por ali acima, dezenas e dezenas de atletas a decorar o quadro. Eu vou-me sentindo melhor e vou aumentando aos poucos o meu ritmo. No topo da subida está o 1º abastecimento líquido (EH), onde o nosso companheiro Paulo Quintans trata do nosso bem-estar! Enquanto coloco mais água no Camelbak, passam o Marco e o Nuno sem parar, problema no pneu já resolvido. Eu sinto-me cada vez melhor, e na suposta descida perigosa ultrapasso muita gente. Tenho a melhor bicicleta do mundo, penso, que a isso se presta e me dá enorme confiança. É interminável, mais de 1h a descer, com um cenário de montanha brutal! Páro na EH seguinte e a partir dali tudo muda: uns kms mais à frente, coincidente com a 2ª subida, duríssima, surge-me uma forte dor abdominal do lado direito que não mais me larga até final da etapa. A princípio tento ignorar, contrariar, suportar, mas é mais forte que toda a minha vontade junta, e a muito custo arrasto-me autenticamente subida acima, perdendo assim alguns dos lugares conquistados, mas pior é a sensação de impotência, porque as pernas estão óptimas, mas nem a descer a dor me deixa embalar. Chego à meta em 9º lugar das femininas e é então que percebo que o nosso José Silva ganhou a etapa e é líder do Titan! Passou-me tudo!

Eu e o Javier Carreiras na 1ª Etapa

2ª Etapa – Etapa Gold Nutrition/Espigão Suplementos/5Quinas: Aknioun – Toughach (112kms, 930mts acumulado):

Tudo está em aberto à partida para a 2ª etapa, com um perfil muito mais amigável, embora ainda assim nada fácil. Mais uma vez um arranque fortíssimo, pois tratava-se de embalar o mais que se conseguisse e tentar apanhar grupos para nos protegermos do vento. Começo a perceber que há muitas “individuais” com muitos ajudantes a trabalharem para elas. Eu vou tentando apanhar umas rodas… Hoje não há dor que me abale, mas claro que a etapa anterior deixou algumas marcas em todos. Nas constantes mudanças de direcção e cruzamentos (sempre balizados) desta etapa perde-se algum ritmo e encontramo-nos muitas vezes de cara ao vento, mas mesmo assim consigo imprimir um bom ritmo e passar por algumas participantes femininas, embora tal seja enganoso uma vez que muitas delas estão em dupla mista e não são, portanto, adversárias. Eu continuei em 9º lugar, e o nosso José Silva manteve a camisola de líder mesmo não tendo ganho a etapa. Também o Marco e o Nuno não tiveram problemas mecânicos nem cãibras, sendo que só os vi na partida! O Pedro Serras dizia ter “partido o motor” quando o apanhei já a uns 10/12kms da meta e veio na minha roda até ao acampamento. Uma nota: nesta noite dormimos a 2000mts de altitude, e sempre andámos em cotas não inferiores a 1500mts. O frio de manhã cedo e à noite contrastava com as temperaturas abrasadoras durante o dia. Bem-vindos ao deserto!

"Chupa ruedas" na 2ª Etapa

3ª Etapa – Etapa Bikes World: Toughach – Lamdoure (108kms, 1120mts acumulado) – ETAPA MARATONA:

O Titan não é o Dakar em bicicleta por nada. É que entre muitas outras semelhanças, tem também uma etapa Maratona, em que não existe assistência mecânica ou de massagens. Os atletas carregam o que precisarem para esse dia e para o seguinte, sendo que a organização providencia uma grande tenda comum, banhos e alimentação. Quem quiser opta por carregar saco-cama, roupa lavada ou lavar a que tem e o mais que achar necessário. É peso, mas também é conforto, o que significa melhor descanso. Esta etapa volta a ter uma grande subida nos primeiros 40kms, e uma boa descida para recuperar lugares, e depois alterna subidas e descidas sem grande expressão, mas a perfazerem o acumulado de mais de 1100mts e a dar-nos belos cenários de montanha desértica. Já falei do vento?? E já falei do calor?? Pois o dia da etapa maratona teve tudo isso elevado ao infinito. No total, bebi mais de 6lts de água neste dia! Consegui apanhar um grupo no momento chave e esfalfei-me, desgastei-me e dei tudo o que tinha para me manter lá, ou seria uma batalha dura, solitária e inglória contra o vento. O momento em que finalmente vejo o acampamento depois de uma curva, escondido atrás de uma montanha foi uma quase catarse! Catárticas foram também todas as horas passadas naquele acampamento num cenário de eleição, em que tive a sensação de sermos aventureiros em locais totalmente inexplorados. E assistir a mais uma entrega da camisola de líder ao José Silva sob o céu estrelado, um privilégio só reservado a quem não tem medo do desconhecido.

O saco-cama muito bem acondicionado agarrado ao guiador...

4ª Etapa – Etapa Ciclomarca: Lamdoure – Erg Znaigui (98kms, 585mts acumulado):

Acordo com dores de garganta… mau sinal, mas não tenho tempo para pensar nisso! Vamos à 2ª parte da Etapa Maratona, com um desnível mais simpático, pelo menos assim parecia… As montanhas ficam para trás e adensamo-nos cada vez mais no deserto. O vento e o calor não dão tréguas, tento rolar com pequenos grupos, por vezes apenas 2 ou 3 (equipas), mas umas vezes são mais lentos, outras mais rápidos. Estou há quase 10kms sem água mas na cauda de um grupo bom em que seguia o José, um amigo de Huelva, quando chego à última EH, guardada pelo nosso Paulo Quintans. Bebo muito e encho o Camel, enquanto o Paulo me diz para me despachar e não perder o grupo. Isso queria eu Paulo! Não mais o apanhei e o vento contra foi atroz, mais de 20kms rigorosamente sozinha, numa luta com a minha força de vontade e de pernas. Jamais me passou pela cabeça poupar-me, fui tão depressa quanto pude num combate mano a mano com as nuvens de poeira que aquela ventania levantava, completamente seca por dentro, por fora e com a poeira a invadir-me pulmões e garganta. A cerca de 8/10kms apanho o Borja, um amigo que fiz no avião, e ele ia pior que eu. Digo-lhe para se manter na minha roda e vamos paulatinamente, com o vento cada vez mais forte, até que a uns 3kms começamos a ver o acampamento mas parece que nunca mais lá chegamos! O vento é tanto que até dificulta a visão, está tudo turvo. Mas lá cruzamos a meta lado a lado. Mais uma etapa, mais uma batalha. Estou exausta, toda entupida e agora percebo que estou terrivelmente constipada. No fim do dia, enquanto me afogo em mais de 7lts de água que bebi em toda a jornada, constato que subi ao 8º lugar e assisto à confirmação da liderança do José Silva. Amanhã é a etapa de navegação (Etapa Garmin) e a passagem das dunas.

Já sem o saco-cama mas ainda com roupa na mochila...

5ª Etapa – Etapa Xmile Cycle Team: Erg Znaigui – Merzouga (108kms, 510mts acumulado):

Depois de termos recebido no briefing da noite as coordenadas dos CPs obrigatórios, cada atleta e/ou equipa traçava o rumo que queria, tendo total liberdade de navegação. Nesta etapa tive a ajuda e companhia do Javier Carreiras, um galego que estava connosco e que era como se fosse português. Mantivemos um andamento e opções bastante interessantes. A passagem das dunas foi muito divertida, extenuante é certo. Reparei que demorámos 1h30 para percorrer 8k, sendo uns 3 ou 4 totalmente de dunas. Por vezes conseguimos pedalar nalgumas partes de areia mais dura a descer, mas nunca era por muito tempo, só vazando muito os pneus, o que era uma boa opção para quem quisesse poupar tempo. Rolámos muito bem até que aconteceu o que não podia acontecer: o CP 4 não estava nas coordenadas que nos tinham sido dadas, e nem sequer próximo, não se avistava. Apercebemo-nos porque nos avisaram, são as vantagens de andar no meio do pelotão. A mesma sorte não tiveram os da frente, entre os quais o José Silva, que neste dia viria a perder a liderança por um erro claro da organização. Foram no total 4kms a mais, para ir ao CP e voltar. A minha moral caíu um pouco mas o ânimo do Javier ajudou. Não sei se já falei do calor e do vento… Já?? Estou-me a repetir porque eles se repetiam, dia após dia, etapa após etapa, a desidratação, a sensação de secura e de luta inglória contra um vento implacável, que nesta etapa quase me derrotavam, não fosse a protecção do Javier. A cerca de 15kms do final, somos apanhados por um grupo onde seguiam várias raparigas com os “gregários” delas e/ou equipas. Por esta altura já eu tinha travado conhecimento com várias, e mantive-me ali, o andamento estava mais que bom. O Javier, que ainda tinha energia, foi-se afastando e fez uma boa ponta final. O momento bonito do dia foi as 4 raparigas terem cruzado a linha de meta ao mesmo tempo, e os rapazes atrás. O momento feio foi a organização não ter tomado a decisão justa que preservasse a verdade desportiva…

A etapa-rainha, inesquecível!

6ª Etapa – Etapa CCRE Ciclistas Comunes Retos Extraordinarios: Merzouga – Maadid (65kms, 300mts acumulado):

Na etapa de consagração corri com as cores dos meus amigos colombianos do CCRE. Que difícil foi encontrar um ritmo, sensação de pernas pesadas, pulsação que não sobe, vento que não dá tréguas, calor ao qual não nos habituamos… mas está quase! E como sempre, vou tão rápido quanto posso, e só não faço o que não posso, apesar de ser o último dia e poder ter a tentação de abrandar. Mas não quero perder pitada! Não posso porque está quase a acabar e sei que amanhã estou aliviada mas depois de amanhã já estarei nostálgica, e agora estou aqui a escrever este texto e cheira-me a incenso, e todas as manhãs falta-me o “Buenos días Titanes” que se ouvia no acampamento após o despertar, e oiço a mesma música que passava todas as manhãs… Terminei o Titan no 7º lugar feminino, mas não terminei a minha vivência do deserto, não terminei a partilha que não se esgota com este texto, e as amizades que fiz ficam para sempre…

Última etapa, vestida com cores colombianas: CCRE!

Como se pode ler no Race Book da Titan Desert by Garmin: “As emoções são vida, tudo o resto não passa de uma pausa….”

Corto a meta com a bandeira de Portugal na mão!
A todos quantos me ajudaram neste sonho: Bikes World Portugal, OnebuyShop (GPS Garmin), Ciclomarca Bicicletas, rodas Speedsix, Espigão Suplementos/Gold Nutrition, Xmile Cycle Team, todos aqueles que directa ou indirectamente estiveram envolvidos no concurso e na votação, e a toda a comitiva portuguesa  – BEM HAJAM

3 comentários:

  1. Obrigado nós pela tua força, coragem e determinação. No que nos diz respeito estamos muito felizes por te termos ajudado a concretizar um sonho e por nos ter maravilhado com o teu artigo!
    Boas pedaladas

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    1. Sem vocês nada disto teria sido possível! Abriram-me uma janela que eu não quero mais fechar, e a vista é incrível! ;-)

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  2. Que poderei eu dizer... perante a apaixonada descrição de mais esta tua aventura que te marcará pela vida fora ?
    Não é para todos, não é para todos. É preciso gostar muito mas , principalmente , ter muita determinação...
    Parabéns pela aventura e também pela crónica que quase nos transporta ao deserto...
    :)

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