quarta-feira, 21 de março de 2018

CAPE EPIC 2017 - 1 Ano depois (Reportagem na "Bike Magazine")


A prova de BTT mais Épica do mundo!

O nome diz tudo: Épica!

Épica de dura; Épica de longa; Épica de impiedosa; Épica de inesquecível; Épica de extraordinária; Épica de GIGANTE!

Nesta prova, tudo é gigante: o registo prévio na Waterfront de Cape Town, o briefing, as etapas, os single-tracks, os abastecimentos, o staff, as race villages, o número de participantes, os duches, os WCs, as tendas de comida, os serviços de apoio… é tudo em grande dimensão!

Não estamos habituados a uma coisa assim… Poderá ser intimidante para um principiante. Mas poucos são os principiantes que se aventuram numa prova desta natureza. No entanto, há alguns… e a comprová-lo está o que se passou na Etapa 1. Mas antes disso, vamos ao Prólogo!

Prólogo (19/03) – Meerendal Wine Estate (26kms, 750mts desnível+):

Com a famosa Table Mountain como pano de fundo, o percurso do Prólogo era altamente técnico e exigente, do ponto de vista da concentração, mas divertido, quase todo em single track, subidas, descidas, pontes, covas e relevés, e destinava-se a escalonar as equipas, sendo que o tempo total iria ditar o horário de partida para a Etapa 1 e a respectiva box de saída.

A “IronTeam”, composta por mim e pelo João Mesquita, tinha a partida marcada para as 07:41:40. Custou levantar de madrugada para nos deslocarmos (cerca de 40kms) até à partida do Prólogo e chegar lá com a devida antecedência, mas ainda bem que assim foi. Fazia um calor invulgar para aquela hora da manhã, e aqueles que partiram perto das 11h ou 12h sofreram muito mais com as temperaturas elevadas! 




Correu-nos bem e fizemos 1:35:39, o 2º melhor tempo entre as equipas lusas, o que nos colocou em 25º lugar das equipas mistas, e nos reservou a Box F na partida para a Etapa 1.

Viajámos (com a companhia de 2 amigos brasileiros – o idioma e a História une as pessoas) até Hermanus, a cerca de 125kms dali, e foi quando chegámos ao acampamento que tomámos consciência da verdadeira dimensão, do colorido, do multiculturalismo e dos recursos existentes à volta deste evento. Escolhemos 2 tendas (uma para cada um) e instalámo-nos. Ainda ajudei o George Hincapie a encontrar a zona de duches, e esta?

Etapa 1 (20/03) – Hermanus - Hermanus (101kms, 2300 D+):

Hoje ia começar a festa. E que festa! Foram 7:25:54 de festa! 101kms num autêntico braseiro, areia até dizer chega, single tracks com fartura e pedra misturada com areia no topo do bolo!

Cada uma das etapas tinha 2 extras, com o nome de alguns patrocinadores: uma contagem de montanha (zona Hansgrohe ou zona Dimension Data) e uma descida técnica (zona Land Rover), havendo um prémio para o 1º classificado/a em cada uma dessas zonas, verificável através do tracker que transportávamos.

Sendo a 1ª etapa, muita gente abusou, e muita gente encostou. Muitos não estavam preparados, quer fisicamente quer psicologicamente para a combinação de calor (mais de 40ºC), humidade e dureza extrema que se veio a verificar. A subida de 3,5kms e 300mts de desnível, ao km 60, a serpentear em single track pelo “Haarkapers Roete” acabou com as reservas de muita gente. Poucos foram os que se aguentaram em cima da bicicleta, eu excluída! As forças estavam no limite quando após a dura ascensão, tínhamos a zona de descida Land Rover, altamente íngreme e realmente técnica, onde o mais pequeno descuido seria uma queda com possíveis consequências graves. Os travões não eram suficientes pois a bike ia de rojo, além de que ia muita gente apeada. E a pé também se desce depressa num sítio daqueles!

Passada a zona técnica, o calor apertava como nunca, até que tivemos um pequeno rasgo num pneu. Foi penoso colocar a câmara-de-ar com o sol a queimar às 13h30. Seguimos caminho e foi então que nos começámos a aperceber da quantidade de gente com problemas, parados nas bermas sob qualquer sombra.

Chegados ao acampamento, tomámos conhecimento da carnificina da etapa: 80 equipas tinham desistido, ou seja cerca de 12% do total das que partiram! Muitos foram assistidos no hospital, devido a golpes de calor e desidratação. Nós sobrevivemos na 26ª posição da classificação mista, mais que motivos suficientes para estarmos felizes!




Etapa 2 (21/03) – Hermanus - Greyton (62kms, 1500mts D+):

O massacre da etapa 1 e a previsão das mesmas condições para o dia seguinte, levou a equipa médica a aconselhar o encurtamento da etapa 2, algo que aconteceu pela 1ª vez em 14 anos de prova. Os 102kms e 2350mts de desnível, passaram para 62k e “apenas” 1500mts de subida. Foi uma decisão corajosa, e acertada. Na madrugada da partida, já se via gente em muito mau estado, com vómitos e alterações físicas profundas.

Nesta manhã fizemos a mala, pois íamos rumar a outro acampamento, sito em Greyton.

Foi uma etapa que nos correu muito bem e conseguimos um bom andamento. Hoje não havia nem muita areia nem muita pedra, e os single tracks eram imensos e rolava-se rápido mesmo nos singles. Um autêntico parque de diversões! Ainda assim tivemos uma subida duríssima, com cerca de 1,1kms e inclinação média de 12,5%, que era a contagem de montanha do dia.

Já ontem tinha sido uma constante, e todos os dias se repetiu o cenário: a presença fantástica de público espalhado por todo o lado! Parecia uma cena típica da Volta a França: famílias ou pequenos grupos instalados em determinados pontos mesmo no meio do campo, com uma carrinha ou jipe, um guarda-sol, algo de comer e beber, e pulmões em forma para puxar e aplaudir por todos os que passavam! Os miúdos gostavam de estender a mão para que lhes déssemos um “high five”! A injecção de motivação e sorrisos que todos estes entusiastas nos provocavam, era qualquer coisa de fenomenal e foi uma constante ao longo de toda a prova.

O calor continuou, e mesmo após o banho, o único sítio onde se podia estar com menos calor era nos “rider lounges”, onde nos esticávamos nas espreguiçadeiras, colchonetes e “puffs” que havia à nossa disposição, a ver um qualquer jogo de râguebi (o desporto nacional) na TV, a navegar na Internet (excelente serviço de wifi em todos os acampamentos) ou a conversar ou dormitar.




Etapa 3 (22/03) – Greyton – Greyton (78kms, 1650mts D+):

O dia começou um pouco mais fresco, mas mesmo assim atingiram-se os 35ºC no pico do calor. Foi mais uma barrigada de single tracks o dia todo, impressionante! Sem exagerar, a etapa era composta por cerca de 40% de singles no seu todo, que variavam de dificuldade, mas todos exequíveis com a devida concentração e firmeza no andamento, o que além do desgaste físico acrescentava um desgaste mental assinalável. A concentração tinha de ser muita para não falhar curvas e contracurvas, cotovelos apertados a subir e a descer, evitar pedras, troncos e ressaltos, além de que havia encostas sem qualquer proteção, onde o mais pequeno descuido podia significar uma queda desamparada. Em suma, pouco aconselhável a quem sofresse de vertigens!

Fizemos uma boa etapa e mantivemos sempre ao longo de toda a prova a 2ª melhor prestação entre as 9 equipas lusas presentes, embora fossemos a única dupla mista. Na geral das mistas, íamo-nos mantendo no 25º posto, sendo que a dupla brasileira e alemã, liderada pelo Henrique Avancini, se mantinha desde o Prólogo no 1º lugar da Geral absoluta. O detentor da camisola amarela falava, portanto, Português!




Etapa 4 (23/03) – Greyton – Elgin/Oak Valley (112kms, 2150mts D+):

Fizemos as malas de novo, e iniciámos aquela que seria a mais longa de todas as etapas da edição deste ano, o “equador” (meio) da prova. O tempo estava meio envergonhado, o que para quem estava farto de calor não foi nada mau. Mas os termómetros atingiram mesmo assim os 30ºC.

A etapa, designada como de ligação, foi bastante diferente das anteriores, com grandes estradões, a fazerem lembrar o nosso ondulado Alentejo. Mas hoje havia um vento incrível, de tal forma que sempre que possível formavam-se pequenos pelotões para que, com trabalho de equipa, fosse mais fácil progredir no terreno.

Porém, não podia deixar de haver os single tracks da praxe, que apareceram nos últimos 25kms. Na verdade, a etapa acabava numa extensão de single tracks e pontes espectacular, num bosque frondoso e à sombra! Saía-se do single track quase directamente para a zona de meta. Lá estava à nossa espera, como em todos os dias, o pessoal do staff que mal cruzávamos o pórtico, nos levavam a bicicleta para lavagem, os que nos entregavam um pano molhado fresquíssimo para nos refrescarmos e limparmos do pó preto no rosto e pernas, os que nos entregavam todos os dias um saquinho, bem cheio, de um dos patrocinadores com comida de recuperação pós-etapa e para termos alimentos até ao jantar. Mas o meu sítio favorito após a chegada eram as cadeiras super-confortáveis do principal patrocinador de nutrição, ficava ali 1h na tenda de recovery a recuperar o fôlego, a ingerir recovery drink geladinho, a arranjar vontade de comer o que vinha dentro do saco. Depois, era arrastar-me até à zona de duches, tomar um banho de água fria ou quente (era à escolha), recolher o saco da roupa lavada (serviço opcional e pago, não podia ser mais bem empregue!) e entregar o da roupa suja, e ir fazer tempo para o lounge, à espera do jantar. 




Etapa 5 (24/04) – Elgin – Elgin (84kms, 2100D+):

Choveu torrencialmente, trovejou e relampejou durante a noite. O dia amanheceu bastante mais frio, mas não chovia. Tinham-nos prometido um “fun day”, e assim foi: um dia em cheio, e quase repetitivo de tantos single tracks que só de falar neles já parece rotina (sem exagero, foram 60% da etapa)… mas nunca eram iguais! Após uma sucessão de subidas onde imprimimos um ritmo forte, entrámos numa autêntica paisagem lunar, uma zona queimada totalmente despida, em que as árvores foram todas cortadas ficando apenas os tocos. O single track, apelidado de “A to Z”, ziguezagueava durante infindáveis quilómetros, por entre troncos, raízes, pedras e areia, um festim para quem gosta, e um martírio para quem não gosta. Mas há alguém que não goste disto?? O problema era que não se conseguia comer nem beber durante demasiado tempo…

Mas muitos mais singles havia ao longo desta etapa. Mais à frente entrámos num Bike Park, todo construído para o efeito, com pontes, passagens superiores e inferiores, relevés, e inundado de público! Havia até um speaker só para aquele troço. Emocionante, desafiante, a levar a adrenalina ao rubro!

À medida que nos aproximávamos do fim da etapa, o ruído do helicóptero a sobrevoar-nos, o som das pás a girar…. Como não ficar toda arrepiada?? Isto é o Cape Epic!

À noite, durante o jantar (a partir das 18h30), tínhamos sempre os pódios da etapa, as melhores imagens do dia, e o briefing. Neste dia, a dupla do Avancini, vítima duma gastroenterite e de uma sucessão de furos, perdeu a liderança para a dupla do N. Schurter, que permaneceu líder até ao fim. fazer tempo para o lounge, à espera do jantar. 



Etapa 6 (25/05) – Elgin – Elgin (103kms, 2750mts D+):

Dia da Etapa Rainha, e quem começou a ter sintomas de perturbações gástricas durante a noite fui eu… Que pontaria!

Passei mal a noite, mal me alimentei de manhã, e assim continuei durante toda a etapa. Foi um autêntico braço de ferro o dia todo, entre o meu corpo e a minha mente. Sofri desde o km 0 até ao último km, numa luta constante entre o poder e o querer. E querer é poder!

A subida principal nunca mais acabava… Eram 9kms que subiam 600mts, com inclinação média de 7%, nalguns troços atingiam-se os 20%, por entre areia e pedras, até atingirmos cerca de 1200mts de altitude. Estava frio lá em cima, e a descer também. Se a subida nunca mais acabava, a descida também não! Tanta pedra, nunca vi, hoje era o dia da pedra!

Pedalada a pedalada, lá fomos vencendo as dificuldades, mas tive a impressão de termos sido ultrapassados por centenas de participantes! “Um campeão é alguém que se levanta quando não pode…”

Amanhã é o último dia, e estamos a um passo de sermos Finishers, o que não é, de todo, para qualquer um!




Etapa 7 (26/03) – Elgin – Val de Vie (85kms, 1350 D+):

Eis-nos no último dia, que nem por isso seria fácil… Estava bastante frio quando arrancámos, como já vinha acontecendo há 2 dias. Mas eu estava outra pessoa, tinha recuperado, e sentia-me muito melhor. Estávamos decididos a recuperar os cerca de 3-4min que tínhamos perdido para a equipa mista seguinte, que nos ultrapassara no “dia mau”.

Uns 20kms após a partida, formou-se um bom grupo onde rolavam alguns amigos espanhóis e também outra dupla lusa. Trabalhámos tão bem, contra vento de frente, que vários kms antes da grande subida do dia e última do Cape Epic (a Franschhoek Pass), apanhámos a dupla mista que perseguíamos e nunca mais os vimos. Foi pedalar, pedalar, pedalar como se não houvesse amanhã! E não havia!

Não havia mais daquelas “feed zones” fenomenais, onde havia de tudo: bolos, brigadeiros de frutos secos, gomas, sandes, carne fumada, batatas assadas, fruta, barras e géis à escolha, isotónicos, água, etc. Eu tinha adquirido um serviço de nutrição, onde tinha sempre 2 bidons novos com as minhas bebidas (frescas!) à minha espera; uma zona mecânica onde nos punham óleo na corrente sem sequer desmontarmos, e... uma tenda da Oakley onde nos limpavam os óculos! Bem-vindos à melhor prova de BTT do mundo!

Antes de nos começarmos a aproximar da área de Val de Vie, ainda tivemos de passar uns bons single tracks em sobe e desce cheios de areia, mas eu já nem pensava nisso, pois já sentia a alegria a tomar conta de mim.

Quando entrámos na espécie de “herdade” que é Vale de Vie, famosa pelos seus campos relvados para a prática do pólo (para variar não é uma zona de vinhas), um sentimento de realização para além do que conhecia até então, começou a apoderar-se de mim. Senti um arrepio e conforme nos fomos aproximando e entrámos no funil de meta, não consegui evitar umas lágrimas que se misturaram com todo aquele pó preto que nos cobria o rosto. Dei um abraço ao João, e agradecemos mutuamente a paciência e entreajuda que são o 3º elemento de qualquer dupla bem-sucedida.

Subimos ao 23º lugar da classificação mista, mas que importa isso? We are Finishers! É algo que nos marca e um orgulho imenso vestir esta camisola!

Se eu podia fazer provas de BTT por etapas por esse mundo fora, e nunca fazer o Cape Epic? Poder, podia… mas nunca seria a mesma coisa! Ver para crer… We are such stuff as dreams are made on” (Shakespeare)




AGRADECIMENTOS - Sem a ajuda das marcas e entidades que nos apoiaram, esta aventura não teria sido possível:

À GOLD NUTRITION, CICLOMARCA – Specialized Spot, SPEEDSIX Wheels, Wellness SportCity, Filipa Vicente Nutricionista, FisioPalongo, ADCRPJ e BikeMagazine – BEM HAJAM!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ironman Zurique - IM7

"Hay una montaña dentro de cada uno. Es un espejo. Te muestra tus temores y tus fortalezas, quién eres. Te ayuda a conocerte." (Killian Jornet)

Escalei o meu 7º "8000"...

O que é isto de "8000"?? São só as 14 montanhas com mais de 8000mts no mundo...

Que tem isto a ver com o Ironman?? Aparentemente nada...

Mas para mim tem muito...



Tem a dificuldade;

Tem o carácter insólito;

Tem a garra;

Tem a determinação;

Tem o espírito de sacrifício; 

Tem o sofrimento;

Tem uma dose de loucura;

Mas por cima disto tudo tem... A paixão e o amor pela montanha, tal como a paixão e o amor pela distância IM!



Lírica, pensarão alguns...

Pensem... enquanto pensam, eu faço!

Faço por mim e para mim; faço porque gosto.

Não, não me farto!

É como quem adora chocolate.. mesmo que tenham uma dor de barriga, não vão deixar de comê-lo! 

I can't get enough..

I can get no... satisfaction!



Vou continuar a tentar, até que hei-de chegar ao Everest.. talvez seja preciso escalar os 14 "8000" antes... mas lá chegarei!

Com isto tornei-me a IM7... há o CR7... pfff, ele "só" sabe jogar à bola! Será que sabe nadar, pedalar e correr durante 12h?? 

"Olá, sou a IM7, prazer em conhecer-te Ronaldo. Vamos a uma corridinha com séries?? Só 1h30, que tal??"

Rir é o melhor remédio do mundo!


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

IRONMAN Maiorca 2016: Uma montanha nunca vem só!

Escalei o Nanga Parbat em 2010; 

O K2 em 2011;

O Lhotse em 2012 ;

O Makalu em 2014;

O Broad Peak em 2015;

E acabei de escalar o Annapurna no passado dia 24 de Setembro!



Para quem gosta de montanhas e de desafios, perceberá a analogia... para quem desconhece, é apenas porque gosto da associação entre as 14 montanhas do mundo com mais de 8000mts e as provas de Ironman...



Um dia vou chegar ao Evereste! Ainda não foi este ano, mas cada vez estou mais perto! :-)

O Annapurna é o mais perigoso de todos.... partiu-me uma clavícula!

Porque insisto em escalar montanhas? Porque estão lá! (George Mallory)

Esta montanha teve faces ocultas que esconderam contratempos, desilusões, retrocessos, sangue, suor e lágrimas...

Mas o segredo para se progredir na montanha é colocar um pé à frente do outro; passinhos pequenos, mesmo que haja 1 passo atrás, há que dar 2 passos para a frente, com ganas e determinação.

A "vingança" é um prato que se serve frio:

Vingança da fractura que me estragou os planos, mas afinal fiquei a ganhar;
Vingança das semanas de 20h de treino;
Vingança das alvoradas às 05h30 da manhã;
Vingança dos treinos bi-diários todos os dias;
Vingança dos treinos de 5h em cima do selim, e dos "bricks" com quase 40º de temperatura;
Vingança das privações de praia e férias...

Enfim, podia estar aqui a enumerar todas as vertentes de sacrifício desta montanha, mas as suas vertentes descobertas e a alegria da conquista do cume, superam qualquer face oculta!

Um dia que amanheceu encoberto; uma chuva que teimou em cair persistentemente durante grande parte do dia; o combate corporal pelo meu lugar na água; as curvas técnicas e perigosas do ciclismo; as poças de água na corrida; os pés sempre molhados; os músculos sempre doridos; o controlo do "pace" sempre presente; o cuidado permanente na ingestão de líquidos e sólidos; a vontade sempre indomável; a certeza de querer e poder; o sorriso que nunca me largou; o brilho no olhar; a alegria do sucesso; o levantar dos braços na meta....


Guardo cada instante no meu cartão de memória cerebral, tal como guardei cada recomendação do meu treinador; tal como coloquei em prática cada semana de treino que ele me prescreveu; tal como invertemos cada revés a meu favor; tal como transformámos numa fórmula de sucesso a relação de amizade e confiança que temos. A ti Coach João Matos, o meu mais sincero agradecimento!

E a quem sempre me ajudou e ajuda, Obrigada SPEEDSIX e CICLOMARCA!

E aos amigos que nunca me abandonaram, mesmo nas horas mais solitárias, mesmo após as suas próprias conquistas com que sempre me regozijei e incentivei... houve quem tivesse sempre uma palavra de ânimo! 

Ah, é verdade, consegui cumprir o meu objectivo sub-12h: total de 11h38 de prova! 


A melhorar ainda mais!

Foram 10 dias no paraíso. Maiorca, eu vou voltar!

"The one thing that the endurance world has taught me is that when you stand in the foothills of the mountains, no matter how daunting the path ahead, nor how ponderous the strides you take, simply put one foot in front of the other and eventually, and triumphantly, you will reach the summit"

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Clavícula - Episódio 2

Pois, como alguns saberão, passou um novo episódio desta novela, no último dia 19 de Março...

As cenas do capítulo anterior tinham passado no ano de 2012 (Outubro) e transitaram para 2013...

3 anos depois, a novela prosseguiu, com um episódio inacabado, pois o episódio piloto nunca foi terminado como deve ser...

Assim, sem público, sem espectadores, a solo, num dia de chuva, assisti sozinha ao desenrolar de mais um capítulo desta novela...

Este episódio também trouxe mais este brinde, o 2º brinde igual, da mesma marca e modelo.. já é um episódio repetido, daqueles que já ninguém quer ver:



Sem dramas... desta vez,dores nem vê-las (graças a Deus!!!) e muita autonomia apesar de algumas limitações...

Nem vou falar da incompetência e negligência do ortopedista e do radiologista do Hospital de Setúbal onde fui assistida de início... Para eles, não tinha nada além de magoado. Tome lá uns anti-inflamatórios e analgésicos e siga!

Mas como eu não nasci ontem, fui ao particular...

Aqui está o ANTES:


E aqui está o DEPOIS:


E como qualquer boa história tem de ter um final feliz...


A minha cara não o diz, mas feliz por ter sido operada, 9 dias depois, por um cirurgião "top"!

Um mês depois, o que me tem feito mesmo feliz é isto:



É o que se pode arranjar por enquanto, e já é muito bom!!! :-)

Até breve!

I'll be back... STRONGER!

quinta-feira, 14 de abril de 2016

42ª Volta ao Algarve - 2016

A Volta ao Algarve, edição de 2016, teve lugar há praticamente 2 meses, de 17 a 21 de Fevereiro, mas agora que estou de "asa quebrada" (lesionada), é que tenho tempo de escrever sobre ela.

É uma grande Volta, a contar para o ranking UCI, e que dá o tiro de partida para a temporada de 2016 na Europa, onde ainda faz muito frio, mas o sol do Algarve raramente desilude. Se bem que a temperatura desiludiu um pouco, algo abaixo das minhas expectativas, em comparação com o ano passado.

Foi a 1ª vez que fui com o intuito de assistir a algumas partes das etapas, e usufruir de todo o "circo" (no bom sentido) montado em redor de todas as estrelas do ciclismo mundial que compuseram este ano o leque estratosférico dos participantes.

A base da nossa estadia foi em Albufeira, onde iria terminar a 1ª Etapa. Estávamos muito bem instalados!



Fez-se um bom treino de manhã, almoço e daqui seguimos para assistir à chegada em Albufeira.

1ª Etapa: Lagos - Albufeira (163.3kms)

Etapa ganha pela sprinter Marcel Kittel, da Ettix/Quickstep, outra coisa não seria de esperar!

Mas o que mais dava nas vistas era o aparato em torno dos autocarros, bicicletas, rolos e participantes em descompressão!


Os "rolos" Tacx da Tinkoff, que em quase nada se assemelham àquilo a que estamos habituados...



O "canhão" conduzido por Tony Martin nos CRs....

É só escolher!

Também há "verdes" no World Tour...


2ª Etapa: Lagoa - Alto da Fóia/ Monchique (198,6kms)

Etapa que veio a ser ganha pelo espanhol da Astana, Luis Léon Sanchez, que vestiu a amarela no Alto da Fóia enquanto todo o mundo congelava tal era o vento gelado que se fazia sentir!

Xmile friends!

Nós descemos antes do pelotão (deixámos uma viatura no Alto) e quase gelávamos na descida! Tivemos de parar algumas vezes para recuperar a sensibilidade e continuar...

Numa dessas paragens estivemos a espreitar para dentro do autocarro da Trek/Segafredo:

"People for Bikes"...
"If you're going through hell, keep going" (Winston Churchill)

Depois de descermos e rolarmos mais uns bons kms, foi tempo de subir para ir esperar pelos "Pros"...


E cá estamos nós aos 900mts de altitude, aqui até estava sol, mas quando encobria... ai meu Deus!


Mas os "Pros" nunca mais chegavam! Calculámos mal o tempo e tivemos de aguentar todo aquele frio umas boas 2h....

Restou-nos circular e tentarmo-nos misturar com toda aquela caravana, espreitar os autocarros, o material, os mecânicos...


The big "S"!

Já não são Jaguares, mas toda a imagem na Sky é extremamente cuidada.


Mas valeu a pena! Ver aqueles atletas top chegar lá ao topo... foi TOP!

E depois da chegada, vê-los descomprimir, rodeados dos "media" e dos fãs...

Alberto Contador, the Great!



Tony Martin foi o que mais tempo esteve nos rolos a descomprimir após a etapa.
3ª Etapa: Contra-Relógio Sagres-Sagres (18kms)

O dia do contra-relógio, com partida e chegada junto à fortaleza de Sagres, é um autêntico regalo para qualquer adepto da modalidade! É quando podemos estar mais perto dos ciclistas, dos autocarros, de toda a logística, ver os seus aquecimentos, os "canhões" que utilizam nos CRs, e tudo o mais que estas equipas do World Tour têm de impressionante!





A "cabra" do "Pistolero"

O lugar onde é montado todo este espectáculo também ajuda, pois é amplo, com imenso espaço para as equipas se espalharem sem estarem umas em cima das outras, e para todos os adeptos e curiosos circularem e mirarem tudo...

E um bidon para "Je", não há??


José Azevedo, Director Desportivo da equipa russa Katusha.

Tiago Machado do Team Katusha.





Uma das caravanas que mais chamou a atenção foi a da Trek/Segafredo, de Fabian Cancellara, pois além de serem sobejamente conhecidas as suas capacidades e títulos em contra-relógio, o anúncio da sua retirada no final deste ano gerava bastante curiosidade e vontade de vê-lo de perto, quem sabe pela última vez....

Julián Arredondo

Horas de partida de cada um dos ciclistas da equipa.

Pois bem, Cancellara chegou, aqueceu, viu e venceu o contra-relógio!



Outra equipa pela qual tinha bastante curiosidade, nomeadamente devido à presença do colombiano Rigoberto Urán, era a equipa da Cannondale/Garmin.


"Rigo" no aquecimento.
Os ciclistas da Cannondale/Garmin foram dos últimos a sair do autocarro para o aquecimento...Coincidência ou não, o que é certo é que "Rigo" (como é carinhosamente conhecido) faltou à chamada para a saída do seu contra-relógio e acabou por partir mais de 1 minuto atrasado.. Mas fez um CR excelente, a ponto de recuperar imensas posições! 


Mas esta etapa também foi muito especial, pois nem só de estrangeiros vive a mais mediática prova ciclística nacional... Também existem equipas portuguesas, que embora se debatam com dificuldades financeiras (e isso vê-se no próprio dispositivo logístico que ostentam), dispõem de profissionais de grande qualidade, pessoas capazes, dedicadas e apaixonadas pelo que fazem...

Tivemos a sorte (e o convite!) de poder acompanhar o CR de um desses profissionais da estrada, de créditos firmados no pelotão nacional, e dos mais experientes: o nosso querido Filipe Cardoso, da equipa EFAPEL. Que privilégio seguir atrás dele no carro de apoio, e que admiração me merece, com as limitações que a equipa tem, pois nem de uma bicicleta de CR ele dispunha...

"No brakes, no brakes!"
Aproximação ao retorno, no Cabo de S. Vicente.

Nesta etapa, o líder/camisola amarela viria a sofrer uma queda exactamente no retorno, no Cabo de S. Vicente, e não pôde prosseguir em prova.

O Filipe é um bravo, e acompanhá-lo foi uma grande experiência!


Mas temos outros grandes valores, como o meu "vizinho" Nuno Ferreira, que fez a sua estreia numa grande Volta nesta equipa.


 E depois de vermos o "circo" todo de perto, fomos ver a saída dos 1ºs classificados da tabela, os grandes e os que tinham aspirações ao pódio e/ou bom lugar na etapa.

O "nosso" Nélson, na sua 1ª temporada na equipa espanhola Movistar, prestes a partir...
Nélson Oliveira, campeão nacional de contra-relógio.
E o grande Contador, "el Pistolero"!


Two seconds to go...
E ainda vimos alguns dos "torpedos" em plena velocidade de cruzeiro...


Tony Martin, campeão alemão de CR em título, e ex-campeão do mundo.
Nelson Oliveira
Amanhã é outro dia!

4ª Etapa: S. Brás de Alportel - Tavira (194kms)

Numa etapa que viria a ser ganha novamente por Marcel Kittel, da Ettix/ Quickstep, esta etapa passava pela conhecida subida ao Barranco do Velho. Assim, lá fomos nós subir também!

Ups, ficou às avessas!
E lá vêm eles!



Já se vão embora??


 
Toma lá um bidon!

Depois da subida, havia uma descida e o terreno no final era propício aos sprinters.

Amanhã será diferente, visto que a chegada e o final da prova é no Alto do Malhão!

Etapa 5: Almodôvar - Malhão/ Loulé (169kms)

Num dia fantástico, de temperatura bem amena e sol radioso, o dia seria de Contador!

O dia também foi nosso, pela minha parte subi 2 vezes o Malhão! Os ciclistas também lá iriam fazer uma 1ª passagem, sendo que depois a etapa e a prova terminariam também no Alto do Malhão.


A Catarina já vinha com muitíssimos kms nas pernas, o que se nota bem nesta subida...
Misturámo-nos com os participantes do Algarve GranFondo, que estavam naquela altura também a  fazer a subida, antes de os profissionais lá passarem a 1ª vez.


Depois da dupla subida, e à maneira das grandes etapas de montanha da Volta à França, fomos "cravar" umas bifanas e umas entremeadas a uns amigos que tinham abancado, (como muitas outras centenas de adeptos por ali) de armas e bagagens (leia-se de grelhadores, geleiras e carvão a bombar) nas bermas da subida. Um belo recovery!

À espera dos ciclistas...
E assim fizemos tempo até surgir a 1ª passagem, em que a moldura humana era tão esmagadora, quanto o pelotão e a respectiva caravana de motos, carros de apoio e autocarros!

Parecia a Volta à França!
E já lá vêm!



Aqui vai aquele que viria a ser o vencedor da etapa, Alberto Contador!
Tiago Machado do Team Katusha.
Aqui seguia o camisola amarela, Tony Martin.
Marcel Kittel e Tom Boonen
Alberto Contador, da Tinkoff, mostrou estar a caminhar para a forma que deseja na Volta à França, tendo ganho esta etapa rainha da prova portuguesa. Encerrou assim a competição com chave de ouro! O vencedor da C. Geral foi, pelo 2º ano consecutivo, Geraint Thomas da Sky.

Para o ano quero voltar, pois adorei a experiência. Mas será para pedalar mais e esperar menos!
Espero que com os mesmo companheiros, porque Voltas há muitas, ciclismo há muito, mas amigos Top... há cada vez menos!

“Life isn’t only about having an obsession but it's about living yours, it’s about obsessing over the little things until you achieve the bigger things.” (Taryn Ryan, Business Manager at Oakley)